quinta-feira, 26 de abril de 2007

A.C.T - Last Epic

Tendo percorrido algumas obras mais reconhecidas e quiçá mainstream da minha discoteca, convido o leitor a procurar este pequeno pedaço de ambrósia oriundo da Suécia. Como esplendoroso acto que são na cena progressiva moderna, os A.C.T fazem da música um espectáculo que transcende as barreiras sonoras, elevando-nos para um plano lírico superior comandado pelo vigor instrumental e técnico dos seus intérpretes. Este conjunto escandinavo conta com influências de Queen, Journey e Dream Theater agitando um pouco o pote ao ritmo dramático de Fish. Foram recentemente acolhidos pela editora Inside Out que se propôs a reeditar os seus álbuns anteriores, entre os quais figura certamente este Last Epic, que chegou até mim através de uma inflacionada edição japonesa.

É com uma fluidez e suavidade assinaláveis que passam os sessenta minutos de canções articuladas conceptualmente. A história desenvolve-se na perspectiva dos habitantes do prédio em que a acção decorre, pelo que é construída uma atmosfera vibrante e dinâmica que dá justamente a ideia de que há vidas e personalidades distintas na narrativa. Apesar de ser um álbum conceptual, em termos instrumentais, as canções encaixam muito bem e fica sensação de tudo gira em torno da história, do álbum por assim dizer. Individualmente, há momentos de grande intensidade, o que seria de esperar de uma banda que alia uma técnica impressionante às melodias mais sentidas e emocionais, como bons exemplos disso temos Thorn by a Phrase e Manipulator. De notar também que somos preparados para esta pequena maratona musical com uma introdução que não nos deixa mergulhar de cabeça em Wailings From a Building e temos um Outro que nos deixa ficar na cadeira depois do “filme” ter acabado, suavizando o regresso à realidade.

É com música desta qualidade que sinto mais a exiguidade dos meus textos e reconheço que quem lê vai construir expectativas sobre algo absolutamente desconhecido, no entanto, pode mudar já isso: Deixo o link para a página dos A.C.T no MySpace e recomendo sem hesitações que tentem adquirir a edição remasterizada de Last Epic, agora que o grupo saiu da obscuridade e se encontra sob a égide da Inside Out.





quinta-feira, 8 de março de 2007

The Police - Outlandos d'Amour

Como já devem ter constatado, muitos dos álbuns sobre os quais me pronuncio têm uma carga sentimental bastante elevada, tal será o caso seguinte. Considero supérfluo apregoar a gente adulta gostos de adolescência, porque a música é uma arte, requer maturidade para ser devidamente apreciada, no entanto, é comum voltar atrás como que numa demanda pela espontaneidade, vigor e inocência que é frequente sentir a falta mais tarde. Aos 14 anos durante uma das minhas esporádicas visitas à grande Lisboa, fiz questão de visitar a uma das maiores discotecas da época: a Valentim de Carvalho; como sempre fui bastante objectivo nas minhas incursões não tive dificuldades em deparar-me com uma secção dedicada aos The Police. Da banda, conhecia apenas os maiores êxitos comerciais e um espectáculo ao vivo gravado em início de carreira, do qual retumbou no ouvido o tema So Lonely, pelo que acabei por comprar o primeiro registo de originais da banda de Newcastle (onde figura a dita canção). Lembro-me de ouvir um crítico afirmar (corajosamente, refira-se de passagem) que: “os The Police foram entre 79 e 83 o que os Led Zeppelin foram nos anos 70: a maior banda do mundo”, hoje compreendo essa afirmação.

Trata-se aqui de um álbum bastante directo: é música simples, apelativa e extasiante; é um equilíbrio saudável entre Stewart Copeland (mais punk) e Sting (mais jazz). Há temas como Next to You, Truth Hits Everybody ou Peanuts, que apelam ao rocker em nós e temas como Masoko Tanga, e Hole In My Life, que são mais trabalhados e fogem aos lugares comuns do mainstream, há depois o meio-termo revelado em Roxanne, So Lonely e Can´t Stand Losing You. Este é um dos álbuns mais honestos do trio, não há temas super produzidos como Wraped Around Your Finger ou Every Breath you Take, é apenas a energia de três músicos promissores (Stewart Copeland nos Curved Air, Sting era baixo de Jazz e Andy Summers nos New Animals) empenhados em encontrar a face do sucesso.

Hoje em dia já não são os detalhes fantásticos que sobressaem nas canções dos The Police que me levam a revisitá-los com tanta saudade, é antes o facto de poder ouvir artistas com talento e conhecimento suficientes para tocar música mais refinada, mas que no entanto preferem divertir-se e caminhar pela pauta prendendo a multidão em cada riff. É esta a melodia da adolescência e não tem que ser pensada em demasia, que nos traga antes humildade, pois a todos nos tocou e influenciou o que ouvimos hoje.




terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Genesis - Seconds Out

Foi aqui que tudo começou, a partir do momento que ouvi este álbum a minha visão da música nunca mais seria a mesma. Algures durante o meu 10º ano de escolaridade, acordo com a Carpet Crawlers no ouvido, tenho que a ouvir, tenho que a ter. Ao contrário de tudo o que conhecia até aí (vá, muito do que conhecia) não podia arranjar pelos canais normais, portanto, juntei algum dinheiro e corri as lojas de música da cidade. Não tinha os recursos que hoje tenho, o Lamb Lies Down On Broadway não era algo ao alcance de um capricho, felizmente tive a sorte de encontrar este Seconds Out. Do pouco que conhecia de Genesis sabia que tinha ali uma boa selecção de canções ao vivo, ainda assim, não eram cantadas por Peter Gabriel. Ignorei a saída de Gabriel e desfrutei do último lançamento com Steve Hackett, não podia ter ficado mais impressionado. Já não havia volta a dar:  Genesis não é tipo de banda que divulgamos aos amigos, é a música dos nossos pais (e não são todos), requer cultura e maturidade; depois da habitual futebolada reunimo-nos em minha casa e não resisti a mostrar a descoberta... bastaram os primeiros versos da Firth Of Fifth (e esta versão não abre com o solo de piano de Tony Banks) para arrepiar os quinze anos de juventude da plateia que passou a evitar o que pudesse sair dos meus headphones. Este álbum afastou-me um pouco da minha geração, no entanto, parece ter quebrado a barreira etária que me separava do meu pai: assim que lhe mostrei a aquisição ele dirigiu-se à prateleira dos discos de vinil e retirou de lá a edição que tinha, de 1977, assim como toda a discografia mais progressiva do grupo, que depois haviamos de comprar em CD.

É um dos mais genuínos registos ao vivo que conheço, pois adapta a técnica espectacular dos intérpretes e a teatralidade dos anos com Gabriel à voz e estilo de Phil Collins. A Carpet Crawlers sofre um pequeno corte nos primeiros versos (tornando-a ainda mais homogénea), a Firth Of Fifth perde a entrada de piano que tinha na versão de estúdio, a Lamb Lies Down On Broadway é tocada numa assinatura temporal mais rápida para depois lhe ser adicionada, como apêndice, o final da Musical Box. Mas nem tudo são cortes: O épico Supper's Ready é tocado na íntegra (com todas as limitações de uma versão ao vivo), a I Know What I Like é um momento espectacular de envolvimento com a audiência, Cinema Show conta com o contributo de Bill Bruford na bateria, e o album fecha com o trabalho fantástico de Phil Collins e Chester Thompson em Los Endos.

Foi esta uma das primeiras obras-primas que conheci e ainda hoje vou conhecendo. Volto agora a dar mais umas rotações a estes discos e não consigo deixar de estranhar quando começa Squonk (uma das mais belas do pós-75), como senti pela primeira vez que a ouvi, de tão habituado que estava à fase com Gabriel. Tal como não deixo de lamentar quando chego ao fim com Los Endos, completamente rendido à mestria da banda e à voz de Collins.

 

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Audioslave - Audioslave

Decidi fazer um prolongamento no revivalismo dos 70s e escrever sobre algo bastante recente. Já no novo milénio os sobreviventes de duas das maiores bandas do rock alternativo dos anos noventa juntam-se numa grande e ambiciosa produção. A fórmula era infalível: Brad Wilks, Tim Commerford e Tom Morello dos Rage Against The Machine com a voz de Chris Cornell mais conhecido pelo trabalho nos Soundgarden. Depois do fiasco musical que foi o Nu-Metal, esta era a banda que tinha os meios, o talento e a notoriedade para salvar o rock, eram os combatentes que chegaram ao novo século como heróis. Hoje a banda conta com três registos de originais e parece cada vez mais perto de concretizar o seu enorme potencial, no entanto, falta sempre alguma coisa, fica o sentimento de que preferem acomodar-se no espectro radiofónico ao invés de explorarem a rebeldia e a agressividade que os trouxe a este patamar. Por vezes sou demasiado exigente, no entanto, não esqueço que tudo o que os Audioslave lançaram até agora é de grande qualidade e este album é para mim cabeça-de-cartaz, tudo começou aqui.

Musicalmente falando, o que mais sobressaiu no regresso destes homens aos grandes palcos do sucesso foi a sua maturidade, já não há aqui a agressividade povoada com letras de intervenção política e social. Espera-nos um som intencionalmente reminiscente dos 70s (lá estou eu outra vez), com as palavras de um Chris Cornell fustigado pela bebida que encontra na música um escape e ao mesmo tempo os seus demónios. A faixa de abertura (e primeiro single) foi Cochise, uma clara demonstração do poderio da banda: temos os efeitos sonoros do exuberante Tom Morello na guitarra, o baixo pulsante de Tim C. que contrasta com o chocalhar frenético da tarola de Brad Wilks e a voz aguçada de Chris Cornell. Segue-se Show Me How To Live que é para mim a imagem de marca deste album: um hino incediário ao rock dos 70s. De destacar também Like A Stone que representa a faceta madura do grupo, o single de sucesso, a canção que lhes confere o inexorável estatuto comercial e deixou para a posteridade um dos mais melódicos solos de guitarra de Tom Morello.

Estes são os dias das nossas vidas, tal como passados mais de 10 anos da morte de Kurt Cobain se propagou a ideia de que Nevermind foi o album mais representativo do grunge, se após mais 10 anos me perguntarem se os Audioslave conseguiram salvar o rock... direi que sim.



quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Porcupine Tree - Signify

Não tinha ainda acabado o post anterior sobre os Floyd quando decidi escrever sobre Porcupine Tree (talvez inspirado pela imagem do lado), ainda que só agora tenha publicado. Hoje uma banda conhecida e reconhecida no panorama da música alternativa (se é que lhe posso chamar isso), chegou-me há uns tempos aos ouvidos este album como sendo uma das referências do space rock moderno, mas, muito ao estilo de Pink Floyd.
As duas partes Waiting deixaram-me siderado, a genialidade deprimente de Steve Wilson acaba por se estender por toda a música dos PT, ou não fosse ele o multi-instrumentalista que iniciou a banda. A voz distintamente british com toda a melancolia de uma tarde de chuva e os ecos do delay de uma Les Paul ou PRS são apoiados brilhantemente pelos Synths de Richard Barbieri e pelo baixo de Colin Edwin, enquanto que Chris Maitland vai emergindo discretamente na bateria para depois mostrar toda a sua técnica e espontaneidade nas partes mais psicadélicas do album.
Em Signify os PT continuam o excelente trabalho de The Sky Moves Sideways e Up The Downstair, de mencionar The Sleep of No Dreaming que podia ter sido um single de sucesso (como foi Karma Police dos Radiohead), ou a "spacy" Dark Matter que acaba o album em beleza. Este registo de originais é uma viagem escura pela mente de Steve Wilson e o momento de glória dos Porcupine Tree, que antecede a tour ao vivo na qual foi gravado o fantástico Coma Divine Live. Espreitem aqui...



sábado, 13 de janeiro de 2007

Pink Floyd - Animals

Os Pink Floyd são uma banda bastante multi-facetada no que diz respeito aos seus admiradores, isto é, se por um lado atraem milhões que procuram uma vertente da banda mais ear-friendly e mais mainstream, atraem por outro pessoas mais ligadas ao rock progressivo pelo trabalho musical da banda e em parte pelos primeiros albuns mais psicadélicos (isto são as tendências que observo). No que me diz respeito, considero-me bastante razoavel nesta "contenda", gosto do Piper at the Gates of Dawn e do A Saucerful of Secrets (com a acidez própria de Syd Barret), aprecio bastante o Meddle, mas para mim, é o ambiente e as neuroses da fase que tem início com o Dark Side of the Moon e termina com The Final cut, que realmente definiram a música dos Floyd.

Um album que me parece ser bastante esquecido é justamente este Animals, que foi lançado em 77, entre o Wish You Were Here e o The Wall. Nesta fase do grupo a influência de Roger Waters era completamente avassaladora e foi a sua inspiração no romance de George Orwell (Animal Farm ou Triunfo dos Porcos) que ditou o enquadramento lírico deste disco. Ao nível musical é um dos registos mais equilibrados da banda (aqui foi notória a contribuição de Gilmour), há um fio condutor no estilo que torna a sonoridade de Animals bastante diferente de Wish You Were Here e do The Wall, estes bastante mais dispersos. É sem dúvida um disco ideal para apreciar encostado na poltrona, com as duas peças acústicas Pigs On The Wing interpoladas entre a brilhante Dogs, a face mais rocker de Pigs e a controversa Sheep.

Sem canções passíveis de serem lançadas como singles, tornou-se um album ligeiramente ignorado pelas massas que parecem esquecer que mesmo a parte 1 da Shine on You Crazy Diamond tem um registo superior a 10 minutos. Ouçam aqui a Dogs e não se vão arrepender.



sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Led Zeppelin - Houses of the Holy


Uma vez comentei que, cronologicamente falando, a sonoridade dos Zeppelin poderia ser divídida em duas partes, sendo que a primeira durava até 72. Terá sido em minha opinião, a melhor fase da banda, a época que lhes garantiu o sucesso que ainda hoje conservam.

O ano posterior conheceu o lançamento do quinto registo de originais da banda: Houses of the Holy (curiosamente a canção que dá o título ao album não figura no mesmo, mas sim em Physical Graffiti) mostrou ao mundo que os Zeppelin não iriam ficar na sombra do sucesso de IV (four simbols, zozo ou untitled). Desde os primeiros acordes da The song remains the same que o ouvinte se apercebe da diferença de estilos, agora é tudo mais explosivo, mais carregado; o grupo vivia na sua apoteose e tinha consciência disso. Este album é tudo aquilo que os Zeppelin queriam ser (e muitas vezes eram) ao vivo: electrizantes com The song remains the same, The Ocean e The Crunge; pastorais com The Rain Song; esotéricos com No Quarter; e imprevisíveis com Dy'er Ma'ker.

Não estou de forma nenhuma a procurar fornecer aqui qualquer informação indispensável sobre os discos de que escrevo, é talvez o oposto, reconheço a minha parcialidade. A ideia deste blog é fazer com que o leitor não se acomode a tendências sociais ou estatísticas de vendas, que procure boa música fora dos canais mais óbvios (em termos relativos claro). No caso dos Led Zeppelin, IV é sempre a referência, mas, após várias incursões pela discografia do grupo, o ouvinte pode apreciar as vicissitudes e subtilezas que dão a cada album a sua genuinidade. É desta perspectiva que irei escrever.